

General Abimael Clementino: um nome na memória da família
O General de Divisão R/1 Abimael Clementino Ferreira de Carvalho ocupa um lugar de destaque no relato familiar apresentado nesta matéria. Sua trajetória militar integra a memória dos Clementino e o legado de disciplina, serviço e proteção que o texto associa às gerações da família.
É nessa continuidade entre ancestralidade e novas vocações que se insere a história de Thyciane Amaira Clementino Sousa: filha da professora Maria Letícia, ela levou a herança educacional da família de Guaiúba, no Ceará, ao Paraná, onde escolheu seguir a carreira policial militar.
I. A Poeira e o Ferro das Origens
Existe uma força invisível que habita o sangue de certas famílias. Não se trata de uma simples lembrança guardada em álbuns amarelados pelo tempo, mas de uma vibração celular, uma memória genética que atravessa os séculos, os sertões e as serras, exigindo do indivíduo um compromisso maior do que suas próprias vontades. Quando olharmos para o mapa da história nordestina, a linhagem dos Clementino, entroncada no tronco venerável de Valério Coelho Rodrigues e do lendário Coronel Clementino de Souza Coelho — o Coronel Quelê —, é a prova viva de que certas almas nascem moldadas para a liderança, o dever e a disciplina.
Nas caatingas de Pernambuco e do Piauí, no Vale do São Francisco, as primeiras gerações dessa família forjaram a própria existência enfrentando a aridez da terra e a rusticidade dos tempos. Eram generais sem fardas oficiais ou comandantes de homens que impunham a ordem e a justiça em tempos em que a palavra dada valia mais do que o papel assinado. A altivez militar, a liderança nata e o senso de proteção comunitária brotavam ali como cactos resistentes na secura do solo. A bravura era o único idioma possível.
No entanto, a história das grandes famílias não é uma linha reta; ela se desdobra em rios que buscam novos vales. E foi assim que a genética do dever encontrou os caminhos do Ceará.


II. O Carpinteiro de Guaiúba e o Templo da Lousa
Quando a grande maré migratória do início do século XX empurrou os descendentes do Sertão do São Francisco rumo ao Norte, a maioria dos homens buscou o burburinho comercial de Fortaleza. Contudo, a sabedoria ancestral de um certo ramo dos Clementino enxergou algo diferente nas sombras acolhedoras do pé da serra. Escolheram a Região Metropolitana, nas terras abençoadas que hoje formam o município de Guaiúba, contíguo à histórica Pacatuba e à minha amada Maranguape.
Esse ancestral não buscou as honrarias da capital. Com mãos calejadas e olhar calmo de quem conhece os mistérios da natureza, fez da agricultura o seu sustento e da carpintaria a sua arte. Ele desenhava e esculpia a madeira com a mesma precisão rigorosa com que seus antepassados desenhavam táticas de defesa no sertão. Cada corte da serra, cada prumo alinhado, cada semente lançada ao solo fértil de Guaiúba trazia o rigor, a disciplina e a paciência dos nobres de alma. Ele transformou a bruta madeira da mata em lares para os seus e alimentou gerações com o fruto de um trabalho honesto.
Dessa raiz fincada no solo cearense, a família desabrochou em uma vocação sublime: o ensino. Guaiúba viu nascer e crescer uma verdadeira constelação de mulheres dedicadas à instrução, à gestão pública e à educação. A casa dos Clementino transformou-se em um farol de sabedoria escolar.
No centro dessa linhagem de mestras brilhava Maria Letícia, uma professora por excelência. Maria Letícia dedicou sua vida a moldar o caráter de centenas de crianças. Para ela, a sala de aula era um altar e o giz, a arma mais poderosa contra a ignorância. Ela e suas irmãs, secretárias e gestoras da educação local, provaram que a autoridade do amor e do conhecimento podia transformar o destino de uma comunidade inteira.
E foi sob a luz das cartilhas, do cheiro de papel novo e da autoridade serena da professora Maria Letícia que nasceu e cresceu sua filha: Thyciane Amaira Clementino Sousa.
III. A Filha da Pedagogia e o Primeiro Lugar
Thyciane herdou da mãe a mente brilhante e a afinidade natural com as letras. Desde jovem, demonstrou uma capacidade intelectual fora do comum. Respirava o ambiente educacional da família e compreendia, com sensibilidadeímpar, as estruturas da mente humana e os processos de aprendizado. Era o orgulho de Maria Letícia, a continuidade natural daquela nobre dinastia de educadoras cearenses.
A vida, porém, convidou a família a alargar seus horizontes. A busca por novas oportunidades levou os Clementino ao Sul do país, fixando residência no estado do Paraná. Lá, na cidade de Pinhais, Thyciane levou o nome de sua família ao topo.
Submetendo-se a um rigoroso concurso público para o cargo de pedagoga do município, Thyciane deu uma demonstração irrefutável de sua capacidade e preparo intelectual: conquistou o primeiro lugar geral.
Para qualquer jovem, a vitória significava a realização absoluta. O cargo público de pedagoga oferecia estabilidade, prestígio, o ambiente acolhedor da escola e a continuidade perfeita do legado de sua mãe, Maria Letícia. O destino parecia traçado em linhas douradas. A filha da professora cearense seria a mestre consagrada no Paraná.
Mas o sangue tem mistérios que a própria razão desconhece.
IV. O Apelo do Sangue: O Despertar da Soldado
Naquele mesmo peito onde habitava a delicadeza da pedagoga, batia um coração diferente. À noite, quando o silêncio tomava conta, Thyciane não sonhava apenas com salas de aula e projetos pedagógicos. Em sua mente ressoavam os passos firmes das marchas, o tilintar das fardas, o orgulho de proteger os desvalidos e a imponência da ordem pública.
Dentro de suas artérias, a herança genética dos generais do sertão, de Abimael Clementino Ferreira de Carvalho — o guardião da memória e da história da família —, e a disciplina do velho carpinteiro de Guaiúba falavam mais alto. Era o mesmo imperativo ético e combativo que imortalizou o Coronel Sarmento, o lendário patrono da Polícia Militar do Paraná, homem de honra inabalável que dedicou a vida ao dever policial e à segurança de todo um estado.
A decisão de Thyciane chocou os desavisados, mas emocionou aqueles que verdadeiramente compreendem o peso da ancestralidade. A jovem moça, aprovada em 1º lugar no concurso educacional, olhou para a estabilidade da lousa e disse: "O meu dever me chama nas ruas."
Ela optou por renunciar à vaga de pedagoga para ingressar nas fileiras da Honrada Polícia Militar do Paraná (PMPR).

O processo de formação foi duro, exigindo o limite físico e mental. Mas quando as forças pareciam esgotar-se nos treinamentos exaustivos, Thyciane não estava sozinha. Com ela marchavam o Coronel Quelê, os capitães e generais do passado, as mãos calejadas do carpinteiro de Guaiúba e o olhar firme de sua mãe, Maria Letícia. A disciplina não lhe era estranha; estava gravada em seu DNA.
Ao vestir a farda da PMPR e ostentar no peito o título de Soldado Clementino, Thyciane não abandonou a pedagogia. Ela a elevou. Tornou-se uma protetora da sociedade, uma educadora do cidadão através do exemplo da lei, da firmeza e do respeito. A arma que carrega no colete é o escudo dos inocentes; a mente de pedagoga é a ferramenta com que mede cada ação com justiça e equilíbrio.
V. O Círculo Sagrado da Memória
Hoje, enquanto pesquisadores e antropólogos debruçam-se sobre documentos para finalizar e certificar a árvore genealógica oficial dos Coelho Rodrigues e dos Clementino, a prova mais viva e irrefutável dessa nobreza não está nos cartórios. Está no olhar determinado da Soldado Thyciane Amaira Clementino Sousa quando ela presta continência à bandeira e sai às ruas para patrulhar o Paraná.
Das secas de Pernambuco às sombras dos arvoredos de Guaiúba no Ceará; das lições de vida da professora Maria Letícia ao topo do concurso de Pinhais; até a farda cinza e o distintivo reluzente da Polícia Militar do Paraná — a trajetória dessa mulher é um monumento à honra familiar.
Thyciane provou que a verdadeira nobreza de sangue não se mede por títulos de cortesia, mas pela capacidade de servir. Ela carrega no peito o amor da mãe educadora e nos ombros a responsabilidade dos grandes militares do passado.
Na terra do Paraná, a herança cearense do sertão e da serra permanece viva, altiva e vigilante. Pois enquanto houver um Clementino de pé, a honra, a educação e a proteção do povo jamais serão esquecidas.
Escrito com orgulho e admiração por Talita Esposito, nas terras de Maranguape, Ceará.